14 de outubro de 2026
Na manhã do dia 8 de outubro, conselheiros municipais, gestores públicos e lideranças sociais de diversos municípios mineiros reuniram-se para o 6º Módulo da Capacitação Online do projeto Longevidade: Fortalecimento dos Conselhos das Pessoas Idosas. Com o tema central "Inovação", o encontro de três horas foi dedicado a debater como a inovação social, as ferramentas digitais e as novas tecnologias podem ser aplicadas de forma prática e humana à gestão pública e ao fortalecimento do controle social.
Conduzida pela equipe do CeMAIS, com mediação de Marcela Giovanna e Aline Seoane, a formação reuniu dois especialistas de destaque: João Souza, cofundador do FA.VELA, organização de referência em inclusão produtiva e inovação de base comunitária, e Luiz Guilherme Queiroz Gomes, especialista em inovação territorial e governança social. A proposta foi desmistificar a ideia de que inovar se restringe a aparatos tecnológicos de alto custo, demonstrando que novas práticas nascem, fundamentalmente, da capacidade de resolver gargalos reais da comunidade.
Ao abordar a inovação aplicada ao setor social, João Souza chamou a atenção para o conceito de Small Data — o uso de dados qualitativos e contextuais gerados no território —, contrapondo a obsessão por números genéricos que ignoram o cotidiano da ponta. Para o especialista, a eficácia de qualquer política ou organização começa pelo compromisso de fazer "o arroz com feijão bem feito", antes de buscar soluções mirabolantes.
Nesse contexto, a inclusão da pessoa idosa no centro da formulação dos projetos é determinante. Souza destacou a necessidade de superar modelos assistenciais engessados, apontando que a população idosa contemporânea demanda letramento digital, mobilidade, cultura e protagonismo ativo. O especialista compartilhou a experiência de integrar pessoas idosas à própria equipe de trabalho para co-construir iniciativas: uma escolha cuja principal barreira foi "a humildade institucional de reconhecer incapacidades próprias" para acolher as contribuições reais de quem vivencia a política pública no dia a dia.
Luiz Guilherme Queiroz Gomes apresentou abordagens práticas sobre como o uso de ferramentas abertas de Inteligência Artificial generativa pode apoiar os conselhos na modernização de seus processos de trabalho. Durante a sessão, foram demonstrados diagnósticos preliminares de municípios participantes — como Divinópolis e Itaúna —, mapeando perfis sociodemográficos que auxiliam a orientar o planejamento dos fundos municipais para áreas prioritárias, como a inclusão digital segura e o atendimento a zonas rurais.
O encontro, contudo, estabeleceu limites éticos e operacionais rigorosos: informações sigilosas, registros médicos ou dados pessoais da população assistida jamais devem ser compartilhados em sistemas abertos de inteligência artificial. Para assegurar o cumprimento das diretrizes de proteção de dados e promover o uso responsável dessas tecnologias, o projeto assumiu o compromisso de elaborar um guia prático de diretrizes de IA voltado aos conselheiros.
O modelo tradicional de fomento via Fundos da Pessoa Idosa também esteve em pauta. Luiz Guilherme provocou uma revisão na elaboração dos editais, sugerindo que os conselhos passem a desenhar chamamentos públicos orientados a missões e problemas territoriais específicos — como combate ao isolamento social, prevenção a fraudes financeiras digitais ou alternativas de transporte adaptado —, em vez de restringirem os repasses apenas ao custeio burocrático de instituições.
Para viabilizar essas soluções, Aline Seoane ressaltou a importância de normalizar a experimentação controlada no setor público, permitindo a validação de projetos em pequenos grupos piloto para gerar aprendizado antes de repasses de grande escala. João Souza reforçou a proposta, sugerindo a criação de "faixas experimentais" de recursos nos editais públicos, com regras desburocratizadas e foco no impacto social real, mitigando a cultura puramente punitiva que muitas vezes afasta a inovação do controle social.
O módulo aprofundou a conexão entre comunicação institucional e mobilização comunitária. Para que a sociedade civil e as próprias pessoas idosas participem ativamente das plenárias dos conselhos, o uso de canais digitais acessíveis, linguagem clara e prestação de contas transparente é indispensável.
Por fim, o debate alcançou a profissionalização e as condições materiais de funcionamento dos conselhos. Diante da responsabilidade de fiscalizar e deliberar sobre orçamentos complexos e recursos vultosos, o colegiado discutiu os impactos da dedicação voluntária e a urgência de garantir suporte estrutural adequado às secretarias executivas e aos conselheiros — assegurando custeio de deslocamento, infraestrutura tecnológica e formação continuada.
A formação consolidou a visão de que a modernização dos Conselhos da Pessoa Idosa passa pela coragem institucional de testar novos formatos, aproximar a sociedade civil das tomadas de decisão e canalizar os recursos públicos para iniciativas que transformem, de fato, a experiência do envelhecimento nos municípios.
Sobre o Projeto Longevidade
O Projeto Longevidade: Fortalecimento dos Conselhos das Pessoas Idosas une esforços com os conselhos municipais de 11 municípios de Minas Gerais para consolidar práticas sustentáveis, qualificar a deliberação dos fundos e estruturar uma gestão mais eficiente. A iniciativa é realizada pelo CeMAIS, conta com o fomento do Conselho Estadual da Pessoa Idosa de Minas Gerais e da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (SEDESE-MG), e com o apoio das empresas Cemig, Gerdau e J Mendes.
Esta matéria faz parte:
Longevidade: Fortalecimento dos Conselhos das Pessoas IdosasTrabalho no Terceiro Setor